sexta-feira, 15 de abril de 2022

Sínodo será «oportunidade perdida» se Igreja não «valorizar o papel dos jovens»

 D. António Augusto Azevedo, presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, esteve no Sínodo como representante da igreja portuguesa. Em conversa com a Família Cristã, fala das principais marcas deixadas pela assembleia que o Papa dedicou às novas gerações e do impacto desejado de uma nova cultural vocacional nas comunidades católicas.

Que experiência o marcou mais neste Sínodo?
O sínodo em si próprio é uma experiência marcante para um bispo, porque sublinha e faz experimentar uma dimensão importante no ministério dos bispos que é a dimensão da comunhão episcopal. Muitas vezes ficamos só com a dimensão de cada bispo na sua diocese, mas o bispo faz parte do colégio episcopal.
Um Sínodo é porventura das maiores experiências de vivência dessa comunhão episcopal com os bispos de todo o mundo. Essa é uma primeira experiência que, de facto, é inesquecível e muito marcante.
Uma tradução concreta dessa comunhão episcopal é a proximidade com o bispo de Roma. É o Papa que convoca o Sínodo, mas o modo como ele pensa, prepara e está no Sínodo é muito importante. Ele esteve em cada dia a receber e cumprimentar as pessoas, e o modo como esteve em cada sessão plenária, estando a ouvir a partilha e os contributos e as propostas de cada um dos bispos e não só é um testemunho muito marcante, isto é, não basta dizer que se ouve, ou propor a escuta como caminho e exercício.
 
Impressionou-o a forma de estar do Papa?
O Papa Francisco, para mim pessoalmente, foi um testemunho do que é saber escutar. Ouvir as pessoas, ter tempo para ouvir as pessoas, e com atenção, não com enfado ou distração. Um aspeto muito curioso deste Sínodo foi o de haver pausas de silêncio entre as intervenções, um silêncio que ajuda a profundar a escuta para que as experiências e as palavras, de facto, toquem fundo.
Essa presença do Papa e o modo como estava no meio dos bispos de facto foi um sinal, uma experiência muito concreta da relação que há dos bispos com o Papa Francisco e os que com ele colaboram na Cúria. Permitiu um maior conhecimento sobre o que é a Igreja de Roma, que tem como missão ser sinal de unidade para a Igreja Universal.
Depois, uma outra experiência muito concreta foi a experiência de diálogo com os outros bispos. Um sínodo, pela abrangência que tem, permite conhecer a realidade da Igreja Universal, e esse conceito de Igreja universal é um conceito que temos na teoria, mas que o sínodo nos permite experimentar na prática, isto é, conhecer e ouvir o que é a vida das várias igrejas pelo mundo.
 

Foi um sínodo mais preocupado em falar de realidades fora da Europa…
Para nós, ou para mim pessoalmente, esta experiência faz-nos muito bem, porque sentimos e percebemos que vivemos muito absorvidos por uma atitude e uma visão muito eurocêntrica, e de facto a realidade da Igreja hoje é uma realidade cada vez menos centrada na Europa. A vida, a experiência e a força da Igreja noutras partes do mundo impressiona-nos. As lamentações que temos, o realismo com que vamos vendo aquilo que se passa à nossa volta contrasta muito com outras realidades.
A realidade da Ásia é uma realidade que nos impressiona, África em muitas regiões, a América Latina sobretudo… faz-nos muito bem ouvir o que é a vida da Igreja nestes lugares, no caso concreto a vida da Igreja no que diz respeito à participação dos jovens.
São sociedades com mais jovens, maior presença de jovens na sociedade e na igreja, e ouvir esses testemunhos faz-nos muito bem até para percebermos qual é a realidade da Igreja hoje. Alarga muito horizontes, e o sínodo permite isso, por um lado, e por outro lado a relativizar um bocadinho algumas das questões que nos vão desgastando e ocupando, e que nos fazem perder algumas energias.
Sob esse ponto de vista, o sínodo foi também uma experiência muito concreta daquilo que o Papa Francisco tem dito desde a Evangelii gaudium, que é a conversão missionária da Igreja. Se há aspeto em que essa conversão é importante é no acolhimento e trabalho com os jovens. Portanto, também esse aspeto foi muito marcante.



 
A assembleia contou com uma participação inédita dos próprios jovens…
O diálogo com jovens de tantas partes do mundo permitiu-me a mim, e aos meus irmãos bispos, conhecer não só a realidade dos jovens em muitos contextos. Dou só 2 ou 3 exemplos que foram muito destacados. A questão das migrações. Podemos falar do fenómeno dos migrantes de um modo geral, mas esse fenómeno, se virmos com atenção, diz respeito sobretudo a jovens.
Os jovens, seja dentro dos países, seja esta migração que vem de África para a Europa, é feita sobretudo por jovens. Outros aspetos têm a ver com a pobreza, outros fenómenos que causam sofrimento noutras sociedades, como a violência, etc, e que afetam basicamente jovens. Portanto, quer esses aspetos mais preocupantes, quer, sobretudo, e deixe-me sublinhar isto, as experiências mais positivas, de movimentos, grupos, iniciativas e projetos de vária ordem, sociais, eclesiais, mas também no que diz respeito à escola e a universidade... tantas iniciativas interessantes que se vão fazendo pelo mundo fora, iniciativas muito lideradas e propostas pelo jovens, onde eles estão muito empenhados.
Foi bom ouvir e conhecer tanta coisa boa que se vai fazendo. Às vezes só valorizamos as dificuldades, mas é bom valorizar o que de muito bom se vai fazendo, sobretudo quando vivemos num contento como é o nosso, e temos de perceber isso nós, portugueses, em que há algum tipo de facilidades.
Ouvir estes testemunho de jovens em contextos muito difíceis, em países onde a Igreja é muito minoritária, em contextos de grande pressão e perseguição à própria Igreja, contextos em que a situação social e política é muito difícil, como a Venezuela e outros países, de facto aí é possível dar mais valor a jovens muito empenhados na sociedade, em várias causas, mas também na vida da Igreja. Foi também uma experiência muito interessante.

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