sexta-feira, 15 de abril de 2022

Como o Sol bailou ao meio-dia em Fátima

 NOTA: Este texto é uma cópia fiel do artigo publicado pelo jornal O Século, no dia 15 de outubro de 1917. Trata-se do testemunho do enviado especial Avelino de Almeida da última aparição de Nossa Senhora. Foi reproduzido na íntegra na edição da FAMÍLIA CRISTÃ de maio de 1967, respeitando-se a acentuação, vírgulas e mesmo a grafia mais brasileira do que portuguesa de certos vocábulos. Avelino de Almeida fez-se acompanhar pelo fotógrafo Judah Ruah, que durante o chamado «Milagre do Sol» se focou apenas nas pessoas que olhavam o céu. Daí não existirem fotografias do Sol. Apresentamos aqui apenas o excerto relativo ao local e hora do chamado "milagre do Sol".

 


Ourem, 13 de Outubro
[…] O ponto da charneca de Fatima, onde se disse que a Virgem aparecera aos pastorinhos do lugarejo de Aljustrel, é dominado numa enorme extensão pela estrada que corre para Leiria, e ao longo da qual se postaram os veículos que lá conduziram os peregrinos e os mirones. Mais de cem automoveis alguem contou e maís de cem bicicletas, e seria impossível contar os diversos carros que atravancam a estrada, um deles o auto-omnibus de Torres Novas, dentro do qual se irmanavam pessoas de todas as condições sociais.
Mas o grosso dos romeiros, milhares de criaturas, que foram de muitas legoas ao redor e a que se juntaram fieis idos de varias províncias, alentejanos e algarvios, minhotos e beirões, congregam-se em torno da pequenina azinheira que, no dizer dos pastorinhos, a visão escolhera para seu pedestal e que podia considerar-se como que o centro de um amplo circulo em cujo rebordo outros espectadores e outros devotos se acomodam. Visto da estrada, o conjunto é simplesmente fantastico. Os prudentes camponios, abarrancados sob os chapeus enormes, acompanham, muitos d'eles, o desbaste dos parcos farneis com o conduto espiritual dos hinos sacros e das dezenas do rosario. Não ha quem tema enterrar os pés na argila empapada para ter a dita de ver de perto a azinheira sobre a qual ergueram um tosco portico em que bamboleiam duas lanternas... Alternam-se os grupos que cantam os louvores da Virgem, e uma lebre espavorida que galga matagal em fóra, apenas desvia as atenções de meia duzia de zagaletes que a alcançam e a prostram á cacetada...
E os pastorinhos? Lucia, de 10 anos, a vidente, e os seus pequenos companheiros, Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, ainda não chegaram. A sua presença assinala-se talvez meia hora antes da indicada como sendo a da aparição. Conduzem as rapariguinhas, coroadas de capelas de flôres, ao sitio em que se levanta o portico. A chuva cae incessantemente mas ninguem desespera. Carros com retardatarios chegam á estrada. Grupos de fieis ajoelham na lama e a Lucia pede-lhes, ordena que fechem os chapeus. Transmite-se a ordem, que é obedecida de pronto, sem a minima relutancia. Ha gente, muita gente, como que em extase; gente comovida, em cujos lábios secos a prece paralisou; gente pasmada, com as mãos postas e os olhos borbulhantes; gente que parece sentir, tocar o sobrenatural... A criança afirma que a Senhora lhe falou mais uma vez, e o ceu, ainda caliginoso, começa, de subito, a clarear no alto; a chuva pára e presente-se que o sol vai inundar de luz a paisagem que a manhã invernosa tornou ainda mais triste...
A hora antiga é a que regula para esta multidão, que calculos desapaixonados de pessoas cultas e de todo o ponto alheias ás influencias místicas computam em trinta ou quarenta mil creaturas... A manifestação miraculosa, o sinal visível anunciado está prestes a produzir-se – asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espectaculo unico e inacreditavel para quem não foi testemunha d'ele. Do cimo da estrada, onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter á terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zenit. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o minimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-hia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar:
– Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!
Aos olhos deslumbrados d'aquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, palido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fóra de todas as leis cosmicas – o sol «bailou», segundo a tipica expressão dos camponezes... Empoleirado nos estribos do auto-omnibus de Torres Novas, um ancião cuja estatura e cuja fisionomia, ao mesmo tempo doce e energica, lembram as de Paul Déroulède, recita, voltado para o sol, em voz clamorosa, de principio a fim, o Credo. Pergunto quem é e dizem-me ser o sr. João Maria Amado de Mello Ramalho da Cunha Vasconcellos. Vejo-o depois dirigir-se aos que o rodeiam e que se conservaram de chapeu na cabeça, suplicando-lhes, veementemente, que se descubram em face de tão extraordinaria demonstração da existencia de Deus. Cenas identicas repetem-se n'outros pontos e uma senhora clama, banhada em aflitivo pranto e quasi n'uma sufocacão:
– Que lastima! Ainda ha homens que se não descobrem deante de tão estupendo milagre!
E, a seguir, perguntam uns aos outros se viram e o que viram. O maior numero confessa que viu a tremura, o bailado do sol; outros, porem, declaram ter visto o rosto risonho da propria Virgem, juram que o sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo de artificio, que ele baixou quasi a ponto de queimar a terra com os seus raios... Ha quem diga que o viu mudar sucessivamente de côr...

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