sexta-feira, 15 de abril de 2022

Que é o segredo de Fátima?

 As aparições de Nossa Senhora em Fátima, no ano de 1917, aos três pastorinhos Francisco, Jacinta e Lúcia suscitaram, à época, grandes multidões a acorrer ao local. A «Senhora mais branca do que o Sol» revelou aos pastorinhos um segredo, dividido em três partes. Sabemos quanta importância tem um segredo nas relações interpessoais. Imaginemos quanta importância terá se esse segredo tiver uma abrangência global, como foi o caso do de Fátima. Porém, se atentarmos à história da Mariologia no século XX, conseguimos ver que o «fenómeno Fátima» só ganha grande importância com São João Paulo II, quando vê retratada nele próprio uma parte do segredo de Fátima.


No livro Segredo de Fátima, Stefano de Fiores, professor de Mariologia na Pontifícia Universidade Gregoriana e na Pontifícia Faculdade Teológica Marianum, defende que a revelação do segredo de Fátima aos pastorinhos ocorreu no dia 13 de julho de 1917, sendo composto de três partes: a primeira parte do segredo contém a visão do inferno.
 
1.ª parte: visão do inferno
«Vistes o inferno – explicou Maria Santíssima aos pastorinhos – para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Coração Imaculado. Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz.»
Por estas palavras percebemos que Deus e Nossa Senhora estão interessados na salvação dos homens mediante a devoção ao Imaculado Coração.
 
2.ª parte do segredo: consagração da Rússia
Na segunda parte do segredo, o assunto torna-se mais histórico e político. Nossa Senhora prevê fome, guerra, as perseguições à Igreja e ao Papa. Fala da Rússia dizendo que «espalhará os seus erros pelo mundo» e aniquilará «muitas nações». Para que isto não aconteça, Nossa Senhora afirma que: «O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.» Por conseguinte, com alguns adiamentos, a consagração da Rússia pedida por Nossa Senhora só aconteceu por meio de São João Paulo II, em 25 de março de 1984.
 
3.ª parte: o futuro apocalíptico
A terceira parte do segredo é aquela que oferece mais difícil interpretação. Ela pode distinguir-se em duas cenas: o anjo vingador e a mulher luminosa; e o sangue dos mártires. Nesta segunda cena é apresentada uma cidade em ruínas, uma estrada semeada de cadáveres e uma montanha escarpada encimada por uma grande cruz. Lá em cima são assassinados o bispo vestido de branco e outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, homens e mulheres leigos. Debaixo da cruz dois anjos regam as almas com o sangue dos mártires. O bispo vestido de branco é tido como sendo o Papa João Paulo II que sofreu um atentado em 13 de maio de 1981. É verdade que o Papa não morreu com os tiros, e ele próprio explica isso pela intervenção de Maria que neutralizou as balas intencionalmente mortais. Este atentado ao Papa João Paulo II originou uma reviravolta na Mariologia em relação a Fátima.
 
O segredo é passado?
O que Nossa Senhora revelou aos pastorinhos é relevante hoje, porque o que ela lhes disse teve repercussões históricas quer antes quer durante e quer depois da aparição. Segundo Stefano de Fiores na obra citada anteriormente, para a Irmã Lúcia, vidente de Fátima, não há dúvidas de que «a alma da mensagem de Fátima está na veneração do Imaculado Coração de Maria» O que Deus quis transmitir por meio de Maria tem como finalidade a salvação do homem. O Papa João Paulo II dizia, em 15 de maio de 1991:
«O chamamento à conversão, à penitência e à oração é uma verdade fundamental do Evagnelho. Confirma-o a Igreja. Por isso, a mensagem de Fátima tem a sua aprovação. À volta deste facto desenvolveu-se, no nosso século, a experiência de Fátima a partir da Igreja, ligada a uma particular enterga ao Coração da Mãe do Redentor.»

Como o Sol bailou ao meio-dia em Fátima

 NOTA: Este texto é uma cópia fiel do artigo publicado pelo jornal O Século, no dia 15 de outubro de 1917. Trata-se do testemunho do enviado especial Avelino de Almeida da última aparição de Nossa Senhora. Foi reproduzido na íntegra na edição da FAMÍLIA CRISTÃ de maio de 1967, respeitando-se a acentuação, vírgulas e mesmo a grafia mais brasileira do que portuguesa de certos vocábulos. Avelino de Almeida fez-se acompanhar pelo fotógrafo Judah Ruah, que durante o chamado «Milagre do Sol» se focou apenas nas pessoas que olhavam o céu. Daí não existirem fotografias do Sol. Apresentamos aqui apenas o excerto relativo ao local e hora do chamado "milagre do Sol".

 


Ourem, 13 de Outubro
[…] O ponto da charneca de Fatima, onde se disse que a Virgem aparecera aos pastorinhos do lugarejo de Aljustrel, é dominado numa enorme extensão pela estrada que corre para Leiria, e ao longo da qual se postaram os veículos que lá conduziram os peregrinos e os mirones. Mais de cem automoveis alguem contou e maís de cem bicicletas, e seria impossível contar os diversos carros que atravancam a estrada, um deles o auto-omnibus de Torres Novas, dentro do qual se irmanavam pessoas de todas as condições sociais.
Mas o grosso dos romeiros, milhares de criaturas, que foram de muitas legoas ao redor e a que se juntaram fieis idos de varias províncias, alentejanos e algarvios, minhotos e beirões, congregam-se em torno da pequenina azinheira que, no dizer dos pastorinhos, a visão escolhera para seu pedestal e que podia considerar-se como que o centro de um amplo circulo em cujo rebordo outros espectadores e outros devotos se acomodam. Visto da estrada, o conjunto é simplesmente fantastico. Os prudentes camponios, abarrancados sob os chapeus enormes, acompanham, muitos d'eles, o desbaste dos parcos farneis com o conduto espiritual dos hinos sacros e das dezenas do rosario. Não ha quem tema enterrar os pés na argila empapada para ter a dita de ver de perto a azinheira sobre a qual ergueram um tosco portico em que bamboleiam duas lanternas... Alternam-se os grupos que cantam os louvores da Virgem, e uma lebre espavorida que galga matagal em fóra, apenas desvia as atenções de meia duzia de zagaletes que a alcançam e a prostram á cacetada...
E os pastorinhos? Lucia, de 10 anos, a vidente, e os seus pequenos companheiros, Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, ainda não chegaram. A sua presença assinala-se talvez meia hora antes da indicada como sendo a da aparição. Conduzem as rapariguinhas, coroadas de capelas de flôres, ao sitio em que se levanta o portico. A chuva cae incessantemente mas ninguem desespera. Carros com retardatarios chegam á estrada. Grupos de fieis ajoelham na lama e a Lucia pede-lhes, ordena que fechem os chapeus. Transmite-se a ordem, que é obedecida de pronto, sem a minima relutancia. Ha gente, muita gente, como que em extase; gente comovida, em cujos lábios secos a prece paralisou; gente pasmada, com as mãos postas e os olhos borbulhantes; gente que parece sentir, tocar o sobrenatural... A criança afirma que a Senhora lhe falou mais uma vez, e o ceu, ainda caliginoso, começa, de subito, a clarear no alto; a chuva pára e presente-se que o sol vai inundar de luz a paisagem que a manhã invernosa tornou ainda mais triste...
A hora antiga é a que regula para esta multidão, que calculos desapaixonados de pessoas cultas e de todo o ponto alheias ás influencias místicas computam em trinta ou quarenta mil creaturas... A manifestação miraculosa, o sinal visível anunciado está prestes a produzir-se – asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espectaculo unico e inacreditavel para quem não foi testemunha d'ele. Do cimo da estrada, onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter á terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zenit. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o minimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-hia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar:
– Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!
Aos olhos deslumbrados d'aquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, palido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fóra de todas as leis cosmicas – o sol «bailou», segundo a tipica expressão dos camponezes... Empoleirado nos estribos do auto-omnibus de Torres Novas, um ancião cuja estatura e cuja fisionomia, ao mesmo tempo doce e energica, lembram as de Paul Déroulède, recita, voltado para o sol, em voz clamorosa, de principio a fim, o Credo. Pergunto quem é e dizem-me ser o sr. João Maria Amado de Mello Ramalho da Cunha Vasconcellos. Vejo-o depois dirigir-se aos que o rodeiam e que se conservaram de chapeu na cabeça, suplicando-lhes, veementemente, que se descubram em face de tão extraordinaria demonstração da existencia de Deus. Cenas identicas repetem-se n'outros pontos e uma senhora clama, banhada em aflitivo pranto e quasi n'uma sufocacão:
– Que lastima! Ainda ha homens que se não descobrem deante de tão estupendo milagre!
E, a seguir, perguntam uns aos outros se viram e o que viram. O maior numero confessa que viu a tremura, o bailado do sol; outros, porem, declaram ter visto o rosto risonho da propria Virgem, juram que o sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo de artificio, que ele baixou quasi a ponto de queimar a terra com os seus raios... Ha quem diga que o viu mudar sucessivamente de côr...

Sínodo será «oportunidade perdida» se Igreja não «valorizar o papel dos jovens»

 D. António Augusto Azevedo, presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, esteve no Sínodo como representante da igreja portuguesa. Em conversa com a Família Cristã, fala das principais marcas deixadas pela assembleia que o Papa dedicou às novas gerações e do impacto desejado de uma nova cultural vocacional nas comunidades católicas.

Que experiência o marcou mais neste Sínodo?
O sínodo em si próprio é uma experiência marcante para um bispo, porque sublinha e faz experimentar uma dimensão importante no ministério dos bispos que é a dimensão da comunhão episcopal. Muitas vezes ficamos só com a dimensão de cada bispo na sua diocese, mas o bispo faz parte do colégio episcopal.
Um Sínodo é porventura das maiores experiências de vivência dessa comunhão episcopal com os bispos de todo o mundo. Essa é uma primeira experiência que, de facto, é inesquecível e muito marcante.
Uma tradução concreta dessa comunhão episcopal é a proximidade com o bispo de Roma. É o Papa que convoca o Sínodo, mas o modo como ele pensa, prepara e está no Sínodo é muito importante. Ele esteve em cada dia a receber e cumprimentar as pessoas, e o modo como esteve em cada sessão plenária, estando a ouvir a partilha e os contributos e as propostas de cada um dos bispos e não só é um testemunho muito marcante, isto é, não basta dizer que se ouve, ou propor a escuta como caminho e exercício.
 
Impressionou-o a forma de estar do Papa?
O Papa Francisco, para mim pessoalmente, foi um testemunho do que é saber escutar. Ouvir as pessoas, ter tempo para ouvir as pessoas, e com atenção, não com enfado ou distração. Um aspeto muito curioso deste Sínodo foi o de haver pausas de silêncio entre as intervenções, um silêncio que ajuda a profundar a escuta para que as experiências e as palavras, de facto, toquem fundo.
Essa presença do Papa e o modo como estava no meio dos bispos de facto foi um sinal, uma experiência muito concreta da relação que há dos bispos com o Papa Francisco e os que com ele colaboram na Cúria. Permitiu um maior conhecimento sobre o que é a Igreja de Roma, que tem como missão ser sinal de unidade para a Igreja Universal.
Depois, uma outra experiência muito concreta foi a experiência de diálogo com os outros bispos. Um sínodo, pela abrangência que tem, permite conhecer a realidade da Igreja Universal, e esse conceito de Igreja universal é um conceito que temos na teoria, mas que o sínodo nos permite experimentar na prática, isto é, conhecer e ouvir o que é a vida das várias igrejas pelo mundo.
 

Foi um sínodo mais preocupado em falar de realidades fora da Europa…
Para nós, ou para mim pessoalmente, esta experiência faz-nos muito bem, porque sentimos e percebemos que vivemos muito absorvidos por uma atitude e uma visão muito eurocêntrica, e de facto a realidade da Igreja hoje é uma realidade cada vez menos centrada na Europa. A vida, a experiência e a força da Igreja noutras partes do mundo impressiona-nos. As lamentações que temos, o realismo com que vamos vendo aquilo que se passa à nossa volta contrasta muito com outras realidades.
A realidade da Ásia é uma realidade que nos impressiona, África em muitas regiões, a América Latina sobretudo… faz-nos muito bem ouvir o que é a vida da Igreja nestes lugares, no caso concreto a vida da Igreja no que diz respeito à participação dos jovens.
São sociedades com mais jovens, maior presença de jovens na sociedade e na igreja, e ouvir esses testemunhos faz-nos muito bem até para percebermos qual é a realidade da Igreja hoje. Alarga muito horizontes, e o sínodo permite isso, por um lado, e por outro lado a relativizar um bocadinho algumas das questões que nos vão desgastando e ocupando, e que nos fazem perder algumas energias.
Sob esse ponto de vista, o sínodo foi também uma experiência muito concreta daquilo que o Papa Francisco tem dito desde a Evangelii gaudium, que é a conversão missionária da Igreja. Se há aspeto em que essa conversão é importante é no acolhimento e trabalho com os jovens. Portanto, também esse aspeto foi muito marcante.



 
A assembleia contou com uma participação inédita dos próprios jovens…
O diálogo com jovens de tantas partes do mundo permitiu-me a mim, e aos meus irmãos bispos, conhecer não só a realidade dos jovens em muitos contextos. Dou só 2 ou 3 exemplos que foram muito destacados. A questão das migrações. Podemos falar do fenómeno dos migrantes de um modo geral, mas esse fenómeno, se virmos com atenção, diz respeito sobretudo a jovens.
Os jovens, seja dentro dos países, seja esta migração que vem de África para a Europa, é feita sobretudo por jovens. Outros aspetos têm a ver com a pobreza, outros fenómenos que causam sofrimento noutras sociedades, como a violência, etc, e que afetam basicamente jovens. Portanto, quer esses aspetos mais preocupantes, quer, sobretudo, e deixe-me sublinhar isto, as experiências mais positivas, de movimentos, grupos, iniciativas e projetos de vária ordem, sociais, eclesiais, mas também no que diz respeito à escola e a universidade... tantas iniciativas interessantes que se vão fazendo pelo mundo fora, iniciativas muito lideradas e propostas pelo jovens, onde eles estão muito empenhados.
Foi bom ouvir e conhecer tanta coisa boa que se vai fazendo. Às vezes só valorizamos as dificuldades, mas é bom valorizar o que de muito bom se vai fazendo, sobretudo quando vivemos num contento como é o nosso, e temos de perceber isso nós, portugueses, em que há algum tipo de facilidades.
Ouvir estes testemunho de jovens em contextos muito difíceis, em países onde a Igreja é muito minoritária, em contextos de grande pressão e perseguição à própria Igreja, contextos em que a situação social e política é muito difícil, como a Venezuela e outros países, de facto aí é possível dar mais valor a jovens muito empenhados na sociedade, em várias causas, mas também na vida da Igreja. Foi também uma experiência muito interessante.